o caos sentimental do ‘tô bem’

Por Portal Opinião Pública 29/01/2026 - 15:50 hs
Foto: Divulgação

por enrico pierro

o problema do “tô bem” é que ele virou meu uniforme emocional. eu uso pra tudo: pra quando estou realmente bem, pra quando estou péssimo, pra quando acordei sem saber que dia é hoje e até pra quando estou apenas existindo igual software travando. “tô bem” virou meu ctrl+c ctrl+v social. porque explicar o que eu sinto dá trabalho e, sinceramente, às vezes nem eu sei.

quando alguém pergunta “como você tá?”, meu cérebro abre umas 42 pastas ao mesmo tempo. tem a pasta do “não era pra eu estar vivendo isso”, a do “como resolvo sem surtar” e a do “não quero falar porque posso chorar ou perder a paciência”. mas o que eu respondo? “tô bem”. curto, eficiente, compatível com a bateria emocional em 3%.

a verdade é que quase ninguém quer ouvir o verdadeiro “como eu tô”. quando a resposta é honesta, o clima pesa, o ar muda e a pessoa tenta achar uma frase motivacional no google mental dela. então eu poupo todo mundo — inclusive eu. “tô bem” vira um filtro de instagram: não resolve nada, mas deixa apresentável.

o curioso é que, quando eu digo “tô bem”, sempre penso se um dia vou estar mesmo. não de forma dramática, mas daquele jeito adulto de quem já entendeu que estar bem é tipo internet de hotel: existe, mas raramente funciona direito.

no fim, “tô bem” é só meu jeito de dizer: tô aqui, sobrevivendo. e isso, honestamente, já é quase uma vitória olímpica.

@enricopierroofc