por enrico pierro
junho chegou sem pedir licença e levou junto a minha vontade
de sair da cama, a minha produtividade e qualquer resquício de disposição que
eu ainda tinha guardado desde maio. e junto com tudo isso, levou também a minha
vontade de viver. eu perco isso no inverno. literalmente.
eu sofro no frio. não é fraqueza, é caráter. tem gente que
ama o inverno, que acha bonito, que posta foto com cachecol sorrindo como se
estivesse num comercial de chocolate quente. eu não sou essa pessoa. eu sou a
pessoa que liga o aquecedor, acende a lareira, coloca três meias e ainda assim
sente o pé gelado como se estivesse pisando em gelo vivo. os dois juntos.
aquecedor e lareira. e ainda assim o pé está gelado. sempre.
eu não quero sair no inverno. não quero abrir a janela, não
quero encarar o mundo lá fora, não quero existir em temperatura abaixo de vinte
graus. o cobertor virou meu relacionamento mais sério do ano. a gente tem
compromisso, cumplicidade e uma dependência emocional que nenhum terapeuta
ainda conseguiu resolver. eu saio de casa e fico pensando nele. volto correndo.
a gente tem futuro.
mas tem uma coisa que o frio faz que eu, contrariado,
preciso admitir: ele obriga a gente a parar. o inverno não combina com pressa.
não combina com aquela vida acelerada de fazer mil coisas ao mesmo tempo. ele
pede cobertor, chá, silêncio. pede que a gente sente, respire e fique quieto
por um instante.
e talvez seja exatamente isso que a gente mais precise e
menos consiga no resto do ano.
então tá bom, junho. você chegou sem avisar e levou minha
vontade de viver. mas me deu o cobertor. e por hoje, já é suficiente.
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