por enrico pierro
tem algo profundamente brasileiro em se jogar numa festa
junina sem saber nada. sem saber dançar quadrilha, sem saber se aquela comida
vai te matar na madrugada, sem saber se o figurino de caipira combina com você.
e fazer de qualquer jeito. com alegria, com barulho, com aquele sorriso de quem
sabe que está improvisando, mas decidiu que não importa.
eu acho que a vida é assim. um arraiá permanente.
a gente casa com quem não devia às vezes e às vezes dá
certo. come mais do que deveria, arrepende na hora e repete depois. dança sem
saber os passos, tropeça, ri, levanta e continua. porque festa junina não tem
certo ou errado. tem presença. tem a alegria de quem chegou, se jogou e decidiu
que o milho vai grudar no dente mesmo, o quentão vai ser forte demais mesmo, e
vai valer a pena mesmo assim.
a vida brasileira tem esse dom particular de transformar o
improviso em tradição. a gente não planejou muita coisa, planejou menos ainda,
e ainda assim chegou até aqui, com bandeirinha colorida, forró tocando e o
coração quentinho.
então que seja. que a vida continue sendo esse arraiá
maluco, barulhento e cheio de surpresas. eu prefiro dançar torto aqui do que
ficar sentado esperando a música perfeita pra começar.
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