Em entrevista exclusiva, odontólogo mauaense fala sobre participação em Fórum da ONU

Por Portal Opinião Pública 16/05/2019 - 10:55 hs
Foto: Divulgação

De volta ao Brasil, após participar da terceira reunião do Fórum dos países da América Latina e Caribe (CEPAL) - evento organizado pela ONU (Organização das Nações Unidas) que tratou sobre o tema Desenvolvimento Sustentável, na cidade de Santiago – Chile, o odontólogo mauaense Luiz Fernando Cuer Ferreira entende que é hora de haver uma discussão maior e mais ampla sobre o tema em todo o País. E para isso, ele pretende agir para que, pelo menos, esse assunto seja debatido na região.

Animado com as discussões sobre esse e outros temas durante o evento, Cuer acredita que o debate pode ser trazido para Mauá e para o ABC por meio do Consórcio Intermunicipal Grande ABC, com quem ele pretende iniciar um contato para sugerir a criação de um grupo de trabalho focado nessa questão.

“Eu pensei em pedir ajuda para alguns atores políticos para tentar levar isso para o Consórcio Intermunicipal. Acho que seria uma forma de tentar fazer um pacto de que os sete municípios tentassem implementar alguma coisa”, disse.

Em entrevista exclusiva ao Portal Opinião Pública, Cuer explica também quais experiências ele pode viver durante os dias em que esteve no Chile para participar do Fórum, o que aprendeu com as pessoas que também marcaram presença no evento, como os outros países têm enxergado e tratado esta questão, qual a imagem do Brasil perante nossos vizinhos, entre outras questões. 

Jornal Opinião Pública - Como foi essa experiência e o que você pode absorver desta participação no Fórum dos países da América Latina e Caribe (CEPAL)? 

Luiz Cuer – Pra mim foi melhor do que eu imaginava. Fui com uma expectativa de que seria uma coisa boa e voltei com o sentimento de que foi uma experiência maravilhosa. É muito diferente poder participar de um fórum como esse. Tinham representantes do Governo, da sociedade civil, de bancos mundiais, enfim, você percebe que existia uma vontade dos atores na sociedade participarem (das discussões). E eu voltei com muita vontade de seguir participando destes eventos porque eu acho que podemos contribuir. Podemos trazer (o tema desenvolvimento sustentável) para uma discussão, para um debate político no ano que vem (ano de eleição). 

JOP – Qual foi seu contato com os outros representantes brasileiros neste Fórum? 

LC – Encontrei um cara de Minas Gerais, que é vereador de uma cidade chamada Conquista, no Triângulo Mineiro, e foi muito legal. Tinham muitos políticos da América Latina em geral, mas o que mais me chamou a atenção em tudo foi a questão das Universidades. A educação foi o tema que mais foi falado, por incrível que pareça. 

JOP – E você conheceu algum representante do atual Governo no evento, já que este é um tema bastante importante para o País? 

LC – Sim. Eu teria uma fala garantida na quarta-feira (24 de abril) às 11h e que acabou acontecendo às 15h. E na segunda-feira (22 de abril), uma moça se apresentou como representante do Itamaraty, porque na porta do local tinha o nome e o país da pessoa que iria discursar, uma lista de oradores. Então dava para identificar quem era brasileiro facilmente nos eventos. E ela chegou, perguntou quem eu era, se eu era representante de algum movimento social e se eu já sabia o que iria falar. Eu disse que sim, mas que não estava entendendo porque ela queria saber e ela explicou que haveria um evento naquela noite, um coquetel só com os brasileiros e que ela queria me convidar para participar. Eu falei que não tinha ido com relação nenhuma com o Governo e que não gostaria de participar, porque o Governo tem a visão dele e eu não queria ter nenhum tipo de contaminação com relação àquilo que eu vejo e que imagino que parte da sociedade também vê. Mas existia sim (representantes do Governo). Vi que tinham dois representantes do Itamaraty lá, que tiveram suas falas na abertura oficial do evento, mas realmente eles não participaram das reuniões paralelas. 

JOP – Participando de um evento que reunia os países da América Latina, qual foi sua percepção sobre a preocupação de nossos vizinhos com o tema desenvolvimento sustentável? 

LC – É uma preocupação muito grande. Muito grande mesmo. E é interessante que todo mundo que participa já tem uma luta em seus países, são pessoas envolvidas, que têm um trabalho social. E falando só da nossa região, é geral as pessoas enxergarem os problemas maiores no Brasil, na Argentina e na Venezuela. Claro que os outros países têm seus problemas, mas a região vê que os problemas que têm acontecido nesses três países talvez sejam o que atrapalha um pouquinho no objetivo de chegar no desenvolvimento sustentável, tanto que eles tiraram um documento para ser apresentado agora em julho, no fórum lá em Nova York. 

JOP – E você foi convidado a participar deste fórum, não? Como foi feita essa escolha? 

LC – Todos os grupos temáticos deram a possibilidade de duas pessoas irem (ao Fórum em Nova York). Fiquei discutindo em um grupo mais focado em educação. Não foi a ideia inicial, porque eu queria participar mais das discussões no Fórum de Desigualdade, mas chegando lá o da educação estava extremamente interessante. Então fiquei mais. E tinha um grupo que tem um projeto chamado “Campanha Latino-Americana da Educação” e esse grupo tirou dois representantes e fui escolhido um deles. E me escolheram pela relevância do Brasil, porque uma que eu era o único brasileiro discutindo nos eventos paralelos e outra que eles disseram que não poderiam deixar o Brasil de fora. Eles disseram que o Brasil tem de participar pelo tamanho, pela importância, pela experiência do Brasil nessa questão da educação e isso aumenta a nossa responsabilidade. E o fato de agora estar num evento de caráter maior, não regional, é interessante. 

JOP – Quando esse fórum em Nova York será realizado? 

LC – Será entre os dias 7 e 12 julho, na sede da ONU em Nova York. 

JOP – Você citou que Brasil, Argentina e Venezuela eram os países vistos como os que estavam um pouco menos preocupados com a questão do Desenvolvimento Sustentável. Você acha que tanto Brasil e Argentina – até porque sabemos da situação atual da Venezuela e entendemos que outras questões são prioridade – pela relevância desses dois países, teriam uma situação mais preocupante em relação a esse tema, até por serem lideranças da América Latina? 

LC - Sem dúvida. E acho que a questão política desses dois países interfere em todas essas questões. Eles veem com preocupação o Governo Bolsonaro, por exemplo, assim como as pessoas veem com preocupação o Governo Maduro, na Venezuela e todos os outros. Fizeram uma tentativa, nesse fórum, de fazer uma manifestação contra o Maduro e não permitiram, os seguranças tiraram o pessoal e as faixas. Como também um grupo do Rio de janeiro tentou fazer uma (manifestação) contra a Reforma da Previdência e que também não foi permitida. Então, o mundo acompanha o que está acontecendo. 

JOP - No seu discurso, que durou quase cinco minutos, você acha que pode resumir bem sua visão sobre a questão do Desenvolvimento Sustentável nesse tempo? 

LC – Não. Na verdade eram três minutos. Esse ano foi Cuba que estava presidindo o evento e eu tinha falado antes com o pessoal da organização que eu faria um discurso e meio que fiz uma consulta pra saber se teria algum tipo de problema se eu falasse da questão política. Falaram que eu podia fazer, mas que se tivesse algum problema ele (presidente da sessão) pediria para eu não continuar. Deixei dois minutos e cinquenta para falar do tema, e falei mais da questão da desigualdade e nos últimos minutos quis dedicar para fazer uma denúncia, que eu acho que é uma denúncia, que todo mundo já sabe na questão do Lula. Foquei esse último tempo para isso. Tinha os representantes brasileiros que, quando pedi licença para falar desse assunto, eles já olharam porque talvez já imaginavam isso. Eles entram no seu Facebook, nas suas redes e veem tudo. E quando eu falo da questão do Lula, percebo todo mundo mudo, prestando atenção naquilo que estava se colocando. Não citei o nome do Bolsonaro, mas coloquei minha visão que foi uma prisão justamente para impedir que ele disputasse as eleições. E pelo caráter do evento, regional, acho que seria importante colocar isso, porque em diversos lugares do mundo existe esse tipo de discussão. Vai o Ministro do Supremo discursar em uma universidade nos Estados Unidos e alguém toma a palavra e pergunta: ‘por que prenderam o Lula?’. ‘Por que vazaram o áudio da Dilma com o Lula?’. Quer dizer, o problema que a gente tem hoje, vem acontecendo em muito por causa do que aconteceu de 2014 para cá. Então, não acho que devemos fingir que não está acontecendo e fiz muita questão de falar isso daí. Até pensei “não sei como vai pegar”, mas era o que eu tinha vontade de fazer. 

JOP - E como você enxerga a influência que um evento como esse pode ter no grupo de países que compõem a América Latina? 

LC – É uma importância grande. Mas nesse evento, foi falado que o Brasil não pagou o correspondente a US$ 18 milhões que deve para uma comissão da ONU que trata do enfrentamento à pobreza. Esse governo não pagou também, mas o (Michel) Temer (ex-presidente) já não tinha pagado. Então, eles estranham até nesse aspecto que o país não está preocupado com isso, porque desde 2003 vem tendo aquela parcela anualmente paga e a partir do Temer já não se paga mais e agora tampouco acho que vão pagar. 

JOP – Voltando com toda essa bagagem que você ganhou com a participação no Fórum, você imagina poder levantar, em termos municipais ou regionais, uma discussão sobre Desenvolvimento Sustentável? 

LC – Eu pensei em pedir ajuda para alguns atores políticos para tentar levar isso para o Consórcio Intermunicipal. Acho que seria uma forma de tentar fazer um pacto de que os sete municípios tentassem implementar alguma coisa. Pensei em propor que o Consórcio criasse um grupo de trabalho para acompanhar de perto tudo o que tem acontecido e que contemplasse os sete municípios para que, de repente, tivéssemos a região toda discutindo e para que em um evento como esse a região tivesse um representante. Eu acho que seria a maior contribuição que eu poderia dar, porque acho difícil na forma que está em Mauá, conseguirmos algo com o Governo Municipal. Estamos em um ano que antecede o processo eleitoral, as forças estão todas se preparando para isso... mas acho que levar isso para o Consórcio, para envolvermos a região, e criar um grupo de trabalho se for do interesse deles, e daí começamos a discutir a questão do Desenvolvimento Sustentável. Eu acho que nossa região poderia ter um enviado especial para acompanhar e participar desse evento. E mesmo esse, que vai acontecer em Nova York, por que não alguém para ir representando o ABC? Acho que seria muito mais importante, porque seria uma discussão que não seria só de Mauá. 

JOP – E qual a sua expectativa para a participação no Fórum em Nova York, debatendo um tema em que você não é especialista, mas que irá estudar nestes dois meses para se preparar visando as discussões? 

LC – Minha expectativa é boa, melhor do que a do último Fórum. Acho que vai ser muito bom. Espero já ter conseguido falar com o pessoal do Consórcio para poder levar alguma coisa de interessante de que, por exemplo, depois de acabar a terceira reunião conseguimos envolver sete municípios na discussão. Eu espero que isso aconteça até minha ida. Mas se não for possível, eu acho que no retorno vai fortalecer para que se tenha o interesse de fazer isso.