Na Câmara de Mauá, ator Valter Carriel faz desabafo sobre situação da cultura na cidade

Por Portal Opinião Pública 01/06/2023 - 11:00 hs
Foto: Divulgação

Não bastassem os embates políticos em Mauá, devido as recentes disputas entre o Legislativo e o Executivo, na última semana a Câmara Municipal foi invadida pelo "Teatro Jornal". Não sabemos se era o ator Valter Carriel indignado ou uma personagem teatral interpretando com forte apelo dramático. Fato é que toda a construção caiu como um bife na sopa da última sessão, esparramando denúncias e reclamações para todos os lados. Lembrava a peça teatral "Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come”, do Vianinha, tamanha veracidade.

Entre os parlamentares, que atentamente ouviam o desabafo, pairava o silêncio, entrecortado por aplausos e manifestações de apoio explícito. Utilizando uma técnica conhecida no mundo inteiro denominada “Teatro do Oprimido”, do teatrólogo Augusto Boal, Carriel deu o seu recado.

Não houve contestação nem interrupções durante sua fala, mesmo porque Valter Carriel é uma personalidade icônica em Mauá. E quem o conhece sabe que ele não tem papas na língua. Ator, arte educador e produtor cultural, com trabalho reconhecido dentro e fora da cidade, ele disse não fazer questão nenhuma de “receber troféus nem condecorações medíocres e hipócritas”, pois se considera um operário e sabe muito a bem qual é a função social da arte.

Em seu desabafo, Carriel não deixou de abordar temas que avalia como importantes. Falou sobre o que considera o aparelhamento e o abandono dos espaços públicos culturais da cidade e de perseguição política. Denunciou a utilização do teatro municipal pelo gerente de cultura para realização de um evento particular da cantora Wanessa Camargo, sob sua tutela, de forma escusa. Ponderou sobre o “Conselho Municipal de Cultura”, que segundo ele é constituído sem discussão efetiva e com pessoas candidatadas e eleitas até por procuração, atribuindo isso ao fato “dessas pessoas não quererem ser sabatinadas publicamente”. Questionou o porquê de a guarda municipal ser chamada no teatro e interpelá-lo, ao que chamou de atitude fascista coordenada pelos condutores da cultura da cidade.

E em meio a toda essa polêmica, chegará à Mauá aproximadamente R$ 3,6 milhões via Lei Paulo Gustavo para amparar os artistas prejudicados pela pandemia. Carriel ainda disse que acompanhará bem de perto a distribuição desse dinheiro e que nenhum artista comprovadamente morador da cidade receberá dinheiro dado por “dó” pela Secretaria de Cultura, na base da “humilhação e do esculacho”, que ele diz não o representar. Sob pena de acionar o Ministério Público, Carriel revelou que – caso necessário - travará uma batalha judicial para ter seus direitos de cidadão e artista assegurados.

"Vão ter que contratar pareceristas técnicos. Na cidade não temos profissionais de cultura isentos, servidores qualificados e competentes para avaliar projetos culturais. O que se tem no comando da cultura da cidade são comissionados oportunistas e caçadores de níqueis desqualificados. O meu destino cultural na cidade não vai ficar nas mãos de aventureiros, incompetentes e nem de segregadores fascistas", disse.

Mas não seria o conhecido polêmico Carriel se ele não terminasse a sua apresentação de forma engraçada. Comparando com aquela que chama de pequena produção cultural da cidade nos últimos 14 anos, ele apresentou uma pasta e um saco cheio de materiais dos quatro anos em que esteve à frente da pasta, forrando o chão do plenário ao derrubar uma quantidade substancial de suas ações de cima da tribuna. Os vereadores Samuel Enfermeiro (PSB) e Sargento Simões (Avante), o ajudaram a recolher o material.

Para quem está no teatro há 40 anos e já fez Shakespeare, Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, muito teatro de rua trabalhando com um dos grupos mais importantes do país, e que junto da atriz Nélia Silva foi o pioneiro na realização de Saraus Líteromusicais na cidade, tendo como padrinhos dois dos maiores nomes do teatro brasileiro, Myriam Muniz e Amir Haddad, o desabafo de Carriel deve ser, pelo menos, ouvido com atenção pela Comissão de Cultura da Câmara de Mauá. Como ele disse "o teatro é a síntese de todas as artes, é filho da história e não de ideologias, muito menos de oportunistas autodenominados ativistas culturais. Cultura de rebanho não passará".