Não bastassem os embates políticos em Mauá, devido as
recentes disputas entre o Legislativo e o Executivo, na última semana a Câmara
Municipal foi invadida pelo "Teatro Jornal". Não sabemos se era o
ator Valter Carriel indignado ou uma personagem teatral interpretando com forte
apelo dramático. Fato é que toda a construção caiu como um bife na sopa da
última sessão, esparramando denúncias e reclamações para todos os lados.
Lembrava a peça teatral "Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come”,
do Vianinha, tamanha veracidade.
Entre os parlamentares, que atentamente ouviam o desabafo,
pairava o silêncio, entrecortado por aplausos e manifestações de apoio explícito.
Utilizando uma técnica conhecida no mundo inteiro denominada “Teatro do
Oprimido”, do teatrólogo Augusto Boal, Carriel deu o seu recado.
Não houve contestação nem interrupções durante sua fala,
mesmo porque Valter Carriel é uma personalidade icônica em Mauá. E quem o
conhece sabe que ele não tem papas na língua. Ator, arte educador e produtor
cultural, com trabalho reconhecido dentro e fora da cidade, ele disse não fazer
questão nenhuma de “receber troféus nem condecorações medíocres e hipócritas”,
pois se considera um operário e sabe muito a bem qual é a função social da
arte.
Em seu desabafo, Carriel não deixou de abordar temas que
avalia como importantes. Falou sobre o que considera o aparelhamento e o
abandono dos espaços públicos culturais da cidade e de perseguição política. Denunciou
a utilização do teatro municipal pelo gerente de cultura para realização de um
evento particular da cantora Wanessa Camargo, sob sua tutela, de forma escusa.
Ponderou sobre o “Conselho Municipal de Cultura”, que segundo ele é constituído
sem discussão efetiva e com pessoas candidatadas e eleitas até por procuração, atribuindo
isso ao fato “dessas pessoas não quererem ser sabatinadas publicamente”.
Questionou o porquê de a guarda municipal ser chamada no teatro e interpelá-lo,
ao que chamou de atitude fascista coordenada pelos condutores da cultura da cidade.
E em meio a toda essa polêmica, chegará à Mauá
aproximadamente R$ 3,6 milhões via Lei Paulo Gustavo para amparar os artistas prejudicados
pela pandemia. Carriel ainda disse que acompanhará bem de perto a distribuição
desse dinheiro e que nenhum artista comprovadamente morador da cidade receberá
dinheiro dado por “dó” pela Secretaria de Cultura, na base da “humilhação e do
esculacho”, que ele diz não o representar. Sob pena de acionar o Ministério
Público, Carriel revelou que – caso necessário - travará uma batalha judicial
para ter seus direitos de cidadão e artista assegurados.
"Vão ter que contratar pareceristas técnicos. Na cidade
não temos profissionais de cultura isentos, servidores qualificados e
competentes para avaliar projetos culturais. O que se tem no comando da cultura
da cidade são comissionados oportunistas e caçadores de níqueis
desqualificados. O meu destino cultural na cidade não vai ficar nas mãos de
aventureiros, incompetentes e nem de segregadores fascistas", disse.
Mas não seria o conhecido polêmico Carriel se ele não
terminasse a sua apresentação de forma engraçada. Comparando com aquela que
chama de pequena produção cultural da cidade nos últimos 14 anos, ele
apresentou uma pasta e um saco cheio de materiais dos quatro anos em que esteve
à frente da pasta, forrando o chão do plenário ao derrubar uma quantidade
substancial de suas ações de cima da tribuna. Os vereadores Samuel Enfermeiro
(PSB) e Sargento Simões (Avante), o ajudaram a recolher o material.
Para quem está no teatro há 40 anos e já fez Shakespeare, Nelson
Rodrigues, Plínio Marcos, muito teatro de rua trabalhando com um dos grupos
mais importantes do país, e que junto da atriz Nélia Silva foi o pioneiro na
realização de Saraus Líteromusicais na cidade, tendo como padrinhos dois dos
maiores nomes do teatro brasileiro, Myriam Muniz e Amir Haddad, o desabafo de
Carriel deve ser, pelo menos, ouvido com atenção pela Comissão de Cultura da
Câmara de Mauá. Como ele disse "o teatro é a síntese de todas as artes, é
filho da história e não de ideologias, muito menos de oportunistas autodenominados
ativistas culturais. Cultura de rebanho não passará".
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