vida comparada
será que estamos vivendo errado.
enquanto a gente compara o nosso cotidiano com o melhor
momento dos outros, pode estar esquecendo que viver bem também cabe num sábado
sem grandes acontecimentos.
sábado passado não aconteceu nada de errado. café da manhã
tranquilo, um pouco de sol na varanda, os cachorros brigando por espaço debaixo
da mesa, o john assistindo alguma coisa na sala enquanto eu fingia que ia
trabalhar e não trabalhei nada. um sábado comum, desses que nem rendem legenda
pra foto. e mesmo assim, no fim da tarde, rolando o celular sem propósito
nenhum, me bateu aquela pergunta chata: será que eu estou vivendo errado?
não veio de nenhuma tragédia. veio do feed. um casal
viajando pra algum lugar com nome difícil de pronunciar, alguém contando que
largou o emprego pra viver de arte, outro mostrando a reforma da casa que ficou
perfeita. e ali estava eu, de pijama às cinco da tarde, comparando o meu sábado
real com o destaque alheio, como se existisse um exame nacional de vida bem
vivida e eu tivesse esquecido de estudar pra ele.
o que me incomoda, pensando com calma, é que provavelmente
boa parte de quem posta esse destaque também está em casa, de pijama, se
perguntando a mesma coisa sobre o sábado de outra pessoa. estamos todos
assistindo o filme editado de todo mundo e comparando com os bastidores crus do
nosso próprio dia. ninguém publica a parte em que ficou parado três horas sem
fazer nada, ou brigou por bobagem com quem ama, ou passou a tarde só existindo,
sem propósito nenhum digno de postagem.
talvez a pergunta certa nem seja "estou vivendo
errado". talvez seja perguntar quem definiu o que é viver certo, e por que
essa definição parece sempre envolver algum lugar exótico ou alguma conquista
que dê pra fotografar. porque se viver certo é ter um sábado tranquilo,
cachorro brigando por espaço, sol de raspão na varanda e alguém que você ama
por perto assistindo tv, então talvez eu tenha acertado bem mais vezes do que a
angústia de domingo à noite costuma admitir.
não tenho resposta fechada, e desconfio que ninguém tem. mas
fica a pergunta em voz alta, pra você pensar também: será que estamos vivendo
errado, ou só aprendemos a comparar o filme dos outros com o nosso próprio
ensaio aberto?
enrico pierro é escritor e colunista, autor de duas da manhã.
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