dia 306.

Por Portal Opinião Pública 05/11/2026 - 15:39 hs
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alface persistente

dia 306.

o projeto de escrever 365 textos acabou virando um diário involuntário, uma coleção de imprevistos e a descoberta de que até uma alface pode ter boas histórias para contar.

chapéu: alface persistente

no dia primeiro de janeiro deste ano eu comecei um projeto meio inconsequente: escrever um texto por dia, durante o ano inteiro. trezentos e sessenta e cinco textos. a primeira entrada terminava assim: "eu me sinto uma alface. espero melhorar no resto do ano". não era o começo literário que eu imaginava, mas era honesto, e a honestidade acabou virando a única regra.

no dia 18, escrevi que não queria fazer um diário. a ideia era um texto por dia, não um relatório da minha vida. a vida, claro, não leu o aviso. em janeiro, a casa virou um sistema hidráulico improvisado, com baldes, toalhas e goteiras que ganharam até nome. teve noite de revezamento entre quartos, cachorros e infiltrações, até o john subir no telhado e resolver o problema. foi ali que o "não quero fazer um diário" perdeu a discussão.

não foi disciplina de monge. teve semana em que empurrei o texto para o dia seguinte até estar devendo cinco de uma vez. mas, no dia 200, percebi que tinha um motivo para me orgulhar: duzentos dias aparecendo, mesmo quando não havia nada de especial para contar.

a maior lição veio quando o gerente de uma farmácia me pediu, de surpresa, uma carta de boas-vindas para uma funcionária. gelei, escrevi tremendo e ele adorou. naquela noite, anotei uma pergunta: por que tento ser um quase filósofo, quando minha própria vida já é roteiro pronto? a porta da geladeira, a gaveta da bagunça e a missa no projetor são filhas dessa descoberta.

quando esta coluna sair, o calendário estará no dia 306. o diário, obviamente, um pouco atrás. mas já tem de tudo: uma alface, a lady murphy e um carro que foi e voltou do mecânico mais vezes do que consigo contar. está tudo em diario.enricopierro.com.br. eu ainda me sinto uma alface de vez em quando. mas uma alface que, com atraso, continua aparecendo.

enrico pierro é escritor e colunista, autor de duas da manhã. leia outras crônicas em enricopierro.com.br